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Em resgate histórico, painel valoriza mulheres por meio da música

A história oficial tem gênero — e nem sempre é o feminino. No painel “Mulheres que decidiram a história: vozes femininas que o tempo não apagou”, encerrou a tarde de painéis da IV Conferência Estadual das Mulheres Advogadas nesta quinta-feira (17/9), na sede da OAB Paraná, em Curitiba, com a professora de geopolítica e cantora Luciana Worms, acompanhada ao violão pelo maestro João Egashira. O painel enfocou a história do Brasil por meio da MPB. Luciana, que é coautora do livro “O Brasil do Século XX: ao pé da letra da canção popular”, vencedor do Prêmio Jabuti, começou sua exposição falando da grandeza de Chiquinha Gonzaga, que quebrou padrões tornando-se música no fim do século 19. Uma de suas composições foi criada em 1895. Anos depois, em 1914, a cartunista e escritora Nair de Teffé, primeira-dama do Brasil, fez a letra, escandalizando a sociedade com a o maxixe Corta-Jaca. Rui Barbosa, adversário político do então presidente Hermes da Fonseca, queixou-se da canção, que considerava vulgar, no Senado Federal. Luciana citou em seguida o samba Pelo Telefone, de Donga, e a fundação da primeira escola de samba. Nessa altura, disse, Ismael Silva incorporou o surdo e o tamborim ao samba, que deixou de ser música para dançar a dois. Ganharam espaço as canções de Noel Rosa, muitas das quais reforçando estereótipos, seguindo o espírito do seu tempo. Era Vargas Foi sob essa quadra cultural que Getúlio Vargas chegou à presidência em 1930. “Naquela época mulher podia ser professora ou trabalhar nas tecelagens. Noel fez uma canção dizendo: ‘quando o apito da fábrica de tecidos, vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você…´”, cantarolou Luciana. Essa etapa da história foi marcada por canções como Amélia, “a mulher de verdade” e Emília, em cuja letra o compositor expressava o desejo de ter uma mulher “que saiba lavar e cozinhar”. A palestrante lembra que os compositores dos anos 30 tinham respeito apenas pelas mulheres com comportamento semelhante ao deles, como Aracy de Almeida e Marília Batista. O Estado Novo encomendava músicas, às vezes modificadas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). “Originalmente, o bonde São Januário levava mais um sócio otário, mas a pressão getulista fez com que a letra fosse alterada para ´leva mais um operário’ e assim ficou”. Anos 60 Depois de fazer a plateia cantar Chega de Saudade, marco da Bossa Nova, Luciana passou rapidamente pelos anos 60. “Tinha um pessoal da UNE (União Nacional dos Estudantes) que fazia música de protesto”, disse. Para marcar a década seguinte, ela apresentou a canção Sem açúcar, de 1975, contraponto às predecessoras Cotidiano e Com açúcar, com afeto. “A partir daí as mulheres foram saindo de casa. Fazendo muitas coisas e aí tem essa canção chamada Francisco el Hombre”, disse em referência a Triste, louca ou má, cantada na íntegra (letra abaixo). Triste, louca ou máSerá qualificadaEla quem recusarSeguir receita tal A receita culturalDo marido, da famíliaCuida, cuida da rotina Só mesmo, rejeitaBem conhecida receitaQuem não sem doresAceita que tudo deve mudar Que um homem não te defineSua casa não te defineSua carne não te defineVocê é seu próprio lar Um homem não te defineSua casa não te defineSua carne não te define (você é seu próprio lar) Ela desatinou, desatou nósVai viver sóEla desatinou, desatou nósVai viver só Eu não me vejo na palavraFêmea, alvo de caçaConformada vítima Prefiro queimar o mapaTraçar de novo a estradaVer cores nas cinzasE a vida reinventar E um homem não me defineMinha casa não me defineMinha carne não me defineEu sou meu próprio lar E o homem não me defineMinha casa não me defineMinha carne não me defineEu sou meu próprio lar Ela desatinou, desatou nósVai viver sóEla desatinou, desatou nósVai viver só Ela desatinou, desatou nós (e um homem não me define, minha casa não me define)Vai viver só (minha carne não me define)(Eu sou meu próprio lar)Ela desatinou, desatou nós (e um homem não me define)Vai viver só (minha carne não me define)
17/09/2026 (00:00)

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